sexta-feira, 5 de novembro de 2010

No umbral da escrita

Era uma terça-feira, dia dois de novembro de 2010.Chuva caia fina na tarde cinza como lâmina de puro aço. Vesti-me rapidamente, peguei bolsa, baton, sombrinha e corri para o Conservatório, onde se realiza minha oficina de escrita, deleite das tardes de terça-feira.

Entrei meio esbaforida porque em pequeno atraso e quando abri a porta da sala me surpreendi porque não havia ninguém.

- Uai, o povo também está atrasado! Nem o Ronald chegou ainda!

Saí para beber água e, ao passar pelos corredores, escutei um som vindo do andar de cima. Orquestra de câmara, pensei. Tocava a marcha fúnebre, de Chopin. Linda, profunda, inquietante. Subi a escadaria e através da greta da porta observei uma menina (e seu desejo) regendo compenetrada a orquestra, gestos suaves e precisos como o voo de uma borboleta. Encantada me deixei escutar.

O barulho de uma porta batendo me chamou atenção e eu desci achando que meus colegas haviam chegado. Entrei na sala e encontrei a irresistível Rosalva, com seu provocante decote, de mãos dadas com o amolador de facas. Padre Nonato esconjurando e D. Maroca gritando de medo e prazer, com o cachorro Sansão se esfregando em suas pernas.

Surpresa, vi Alice chegando apressada, acompanhada do coelho branco, agora cinza, e do Chapeleiro Maluco. Corria da rainha de copas, que gritava:- cortem todos os voos! cortem todos os voos!

Mais adiante, Godofredo e Gertrudes, enrolados em suas toalhas bordadas de “G”, se acariciavam enquanto Joaquim, vindo diretamente de Guiricema para o encontro marcado, trazia na mala o livro vermelho e dourado dos contos inventados e decorados.

No fundo, Noel dedilhava a “Nossa separação”, acompanhado do Vadico, fazendo fundo musical para as conversas de Maria Tomba Homem e sua turma, que, irreverentes contavam causos do padre Natanael. Este por sua vez irrompeu magistralmente pelo recinto e praticou, ali mesmo sua transformação...”penteava os pelos, estes cresciam pelo corpo, dentes afiados de lobo despontavam, olhos sedentos espreitavam”.

-Lobisomem!!!Ouvi um grito de pavor e vi tia Tita, tecendo seu crochê nas meias de lã usadas no inverno, se arrastando em direção a D. Candinha, buscando a proteção do Ulisses que já mostrava os dentes e tomava posição de ataque ao lobisomem.

Corri também eu desesperada e atônita com a realização da palavra que se fazia ali naquela sala onde a renda da invenção se fiava.

Ao chegar à porta de saída, escutei um estrondo e vi as águas do rio São Francisco transbordando do Palácio das Artes, trazendo a bordo do Benjamim Guimarães a mãe d’água, uiaras, tutumarambás, serpentes do rio, carrancas e ribeirinhos. Malas, peixes, casas e árvores submersas nadavam pela av. Afonso Pena seguindo o curso do rio.Vi Ronaldo quase nauFragando na tentativa de salvar seus lindos vestidos bordados de rio.

Atravessei a nado o mar doce de águas barrentas e no café do Palácio das Artes encontrei finalmente a Flávia, Maria Eugênia e Sebastião, meus colegas das tardes escritas das terças-feiras. Juntos tomamos um café Milano coado nas águas do Velho Chico.

Irc, que nojo!

Saí do Palácio das Artes sorrindo. Fechei a porta. Ainda ouvi o último acorde da sonata nº2, 4º movimento(finale), de Chopin.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Finados

Lírio-branco para meu pai.
Rosa-vermelha para minha mãe.
Amor-perfeito para meu filho.
Sempre-viva a saudade.

sábado, 30 de outubro de 2010

Flor do baile

Para D. Vera, a dona do baile

Para Beatriz, que me contou a estória

D. Vera é mineira, costureira e quitandeira. Mora numa casinha com eiras e beiras ali para os lados do Santa Efigênia.Quando moça adorava dançar. Ia para os bailes no Elite com seu Sebastião e rodopiavam os mais românticos boleros. Agora sem marido e com aquela artrose nos joelhos ficou difícil para D. Vera se esbaldar nos salões.

Outro dia, quando já ia saindo de sua casa depois de provar o vestido que ela costurava para mim e me fartar com suas quitandas acompanhadas de delicioso café, ela me chamou para mostrar seu jardim.

Fiquei encantada! Uma parreira carregada de pequenos cachos se debruçava no avarandado e ao lado via-se um pequeno jardim. Beijos, margaridas, rosas, jasmins, manacás e prímulas se esparramavam pelo outubro primaveril. Ela me puxou pela mão para me mostrar uma pequena trepadeira que se esgueirava na noite úmida. E eu vi flores miúdas, brancas e singelas.Nunca as tinha visto e ela me disse:

- Chama-se flor do baile.

Achei diferente o nome e perguntei o porquê. Ela explicou:

- Essa flor tão delicada tem a duração de um baile, nasce e morre durante uma noite.

Fiquei tão estarrecida que a tomei nos braços e bailamos ali mesmo no jardim como duas crianças. E então ela me confidenciou:

- Essas noites de primavera em que baile nasce-morre na sua efêmera existência, eu sonho que estou dançando com meu amado. O sonho dura toda a noite e vai embora quando a flor do baile também vai. Mas este instante vale uma vida!

Aproximei-me de D. Vera e olhei em volta no jardim florido.

Os bailes, fulgurantes e prontos para viver só por uma noite, me tiraram para dançar e eu, de vestido florido, abraçada de flores bailei a primavera inteira-instante.

Márcia Sartorelo Carneiro.

Minha escrita

Escrevo ali
onde não penso,
do lugar onde vivo.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Canto

Recebi por e-mail.

Era imagem e música.

Não era poema escrito,

sofrido,

rimado.

Mas era poesia.

Uma fotografia:

pássaros pousados nos fios de luz da rua.

Presos na imagem,

sem canto.

Alguém olhou:

virou nota pousada na pauta.

Solto da imagem,

pelo canto.

Pássaros pousados na pauta

Permitem pensar partituras.

Fazer-se música,

E voar.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Chuva

O céu vestiu-se de cinza.

Acendeu raios que o trovão apagou.

Fez-se líquido

E desabou.

A terra escorreu seus caminhos.

Abriu-se em gozo de germinar sementes.

Fez-se bela

E desencantou.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Uma praça...muitas histórias

Era uma praça da minha Belo Horizonte. Simples, mas acolhedora. Traçado retangular com largos canteiros gramados e floridos. Ipês e palmeiras coloriam e sombreavam pensamentos. Hibiscos e manacás perfumavam os cantos da praça e dos passarinhos que lá faziam seus ninhos.

Encontrei-a pela primeira vez aos quinze anos quando vim morar em BH, na Floresta.

Tudo muito diferente daquele interior onde passei minha infância. Tudo grande, tudo longe, tanto carro, tanto ônibus, tanto desconhecido, tanto a desbravar. Essa pracinha foi um primeiro refúgio para essa vida nova que se anunciava. Servia de braço acolhedor e de impulso para novas aventuras.Viu nascerem meus primeiros amores.Mãos dadas e beijos furtivos passeavam entre seus jardins. Viu nascerem meus primeiros poemas escritos à sombra de um flamboyan.

Passaram-se os anos e agora são meus filhos que brincam ali. A Ju troca brinquedos com a menininha ruiva para experimentar sua boneca-bebê sendo empurrada num carrinho. O Pê aposta corrida de bicicleta com o gordinho e me encontra ofegante para enxugar o suor que escorre pelo seu rosto quente e rosado. Depois sobem juntos na árvore para testar seus músculos e meus nervos. Cenas ternas da infância e maternidade que a pracinha guardou.

Passaram-se os anos e agora ela amanhece cheia de gente caminhando apressada, ofegante, roupa esportiva, tênis, filtro solar. Algumas conversam animadamente enquanto caminham, outras vão ouvindo rádio no fone de ouvido, outras sós com seus pensamentos. Mas todas, sem exceção, parecem querer chegar a algum lugar apesar de não sair do lugar. E rodam, velhos e moços.As crianças continuam no centro brincando, as bicicletas incomodando.

Os bêbados e drogados também fazem pouso nesta praça. Também os lavadores de carro e tomadores de conta de carro. Contrastes se encontram e lá se cristalizam.

Debaixo de uma pérgula enfeitada de flamboyan sempre tem alguém morando ao ar livre. Dormindo num papelão e cobrindo com um cobertor peleja.

Mas este morador agora decide ocupar para sempre o território. Monta toda noite sua casa com paredes de papelão, teto de plástico para proteger da chuva e do lado de fora uma lata de lixo. Tem até um anexo onde dorme seu cachorrinho. De manhã, desmonta sua casa, dobra seus pertences, coloca-os nos bueiros próximos e vai trabalhar de lavador de carro.

Hoje, passei por lá quando voltava da zona eleitoral onde fui votar em presidente, governador e etc. O chão da pracinha estava coalhado de papel: santinho de candidato.

O morador da praça colava os restos da eleição num quadrado de papelão. Uma carinha junto da outra, um número debaixo do outro, saúde, educação, moradia...

Ia enfeitar sua casa.

Uma praça...muitas histórias.

Márcia Sartorelo Carneiro.