quarta-feira, 1 de junho de 2011

Canto de bar



Estou só neste bar. Espero por ele. Cheguei mais cedo só para observar.Trago comigo um caderno e caneta para anotar. Há muito tempo não escrevo, ando meio embotada, abotoada a blusa no peito, peito fechado.
 Outro dia dizia que não se pode escrever quando se está muito para fora, muito aberta às circunstancias. Também não se pode escrever estando muito fechada . É preciso um nível de intimidade ótimo, um movimento dentro-fora.
Abro o caderno e vejo um escrito de Nietzsche: “para haver arte, para haver alguma contemplação estética, é indispensável uma precondição fisiológica: a embriaguez”.
Olho em torno, as paredes decoradas com gravuras e retratos de cantores conhecidos, as mesas quadradas de madeira de demolição, cadeiras pouco confortáveis, cheiro de cigarro proibido e cerveja ácida, lavanda e suor. Ruído de copos e vozes se misturam.
 É certamente este a mais de energia, este excesso, chamado embriaguez, que nos ajuda a criar. Nietzsche tinha razão: esse a mais do sexo, do amor, do afeto, do desejo, da festa, do comprometimento, do acontecimento é que alimenta a criação estética.
  Estou absorta em meus pensamentos quando o garçom se aproxima com o cardápio.
Peço uma cerveja pensando nas muitas que vou tomar para chegar a este estado fisiológico de embriaguez.

Tomo o primeiro e mais saboroso gole da cerveja gelada vendo a Ângela Maria entrar sorrateira, se esgueirando porta adentro. Posso adivinhar seus pensamentos: - “de noite, eu rondo a cidade, a te procurar, sem te encontrar. No meio de olhares, espio por todos os bares, você não está”.
Sussurro timidamente para ela:- “desiste, esta busca é inútil!”.
Ela sai apressada, para continuar sua ronda e terminar estampada na primeira edição: cena de sangue num bar da avenida São João.

-         “Seu garçom faça o favor de me trazer depressa, uma boa média que não seja requentada”.
Olho assustada e vejo Noel assentado num banquinho do balcão, a dedilhar um violão comendo um pão bem quente com manteiga à beça.

Ouço um celular tocando na mesa ao fundo. Alguém atende:- “Alô, to num bar chego já.
To aqui batendo um papo, tomando uma gelada. Hoje convidei uns amigos para beber, mas daqui a pouco só vai dar eu e você.”
Os amigos riem, fazem troça. Reconheço a zabumba do forró encostada num canto da parede.

Na mesa ao lado da minha uma morena de nome Terezinha se apresenta e é convidada a  assentar.Conversa com um rapaz louro de alhos azuis, ainda desconhecido. Parece que conta sua historia, enumera seus parceiros e suas desilusões.
-         “O segundo me chegou , como quem chega do bar, trouxe um litro de aguardente, tão amarga de tragar”.
Ele entusiasmado também quer contar sua história e diz:- “quando vou de bar em bar viro a mesa, berro, bebo e brigo. Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz, me conhecem só pelo meu nome de menino- Jesus!”E cantarola laiá laiá..

Mais à frente, perto da janela, a doce Aurora (penso que assim se chama por ser clara e orvalhada) conversa com um homem vestido com seu terno mais bonito e diz:
      -“você diz que é operário, sai em busca do salário para poder me sustentar, qual o quê!”.
No caminho da oficina há um bar em cada esquina pra você comemorar, sei lá o quê!”
Francisco batuca na caixinha de fósforos um samba antigo e com olhos marejados lhe pede perdão.
 Olho de soslaio, para não parecer intrometida e só vejo os braços abertos de Aurora enlaçarem o corpo cansado do amado, com açúcar, com afeto.

Ai meu Deus! E o Carlos que não chega. Ficou de me ajudar as selecionar alguns contos meus para o concurso em Parati e até agora nada!
O garçom já traz outra cerveja. –Vou experimentar a de trigo agora, por favor.

Solitário e sem dupla, quase atrapalhando a passagem para o wc, Rick cantarola:
    -“Garçom me traga outra garrafa de cerveja. Vou ficar sozinho nesta mesa. Eu quero beber e chorar por ela...”.

Um rapaz se aproxima da minha mesa. Bandana na cabeça, sorriso de moleque e me confidencia:
      - “procuro amigos de bar, papos desconexos. Procuro um par. De novo o velho sexo, fedendo a vexames. Procuro alguém para amar!”
Sorrio desconsertada, ele se vira e encontra seu par.

Finalmente Carlos chega e junto com ele o cheiro forte de cebola e alho, tempero da carne de sol que havia pedido enquanto o esperava. Pede mais um copo e uma farofa de pequi para acompanhar. Abre meu caderno, agora cheio das anotações feitas no bar. Lê a frase de Nietzsche e diz: - vamos lá ver o que você fez com a sua embriaguez.


Márcia Sartorelo Carneiro




segunda-feira, 23 de maio de 2011

Poema concreto

 Gato           rato
    Gato     rato
       Gato rato
          Grato!





Raposa           galo
     Raposa        galo
          Raposa     galo
               Raposa  galo
                  Cruzeiro!!!
                                                                   

domingo, 24 de abril de 2011

Na beira da estrada





          Caminho distraída pela estradinha de terra arenosa. Serpenteia o rio cipó ao longe, armando o bote para despencar rochedo abaixo em forma de cachoeira. As flores sempre vivas enfeitam as margens sombreadas por ipês, quaresmeiras, canelas-de ema. Cavaleiros passam apressados em direção à cachoeira da Farofa levantando poeira e lançando montículos pastosos e fedorentos a demarcar o percurso.

         Assento-me numa pedra, beira de um curso d’água para refrescar os pés e a garganta. Aproveito para comer uma barrinha de cereal - energia com pouca caloria.

         Uma cor azul borboleteia pelos caminhos e pousa num objeto meio escondido, meio aparecido à beira da estrada. Vou ver do que se trata.
-         Um baú abandonado!... ou terá sido colocado aí propositalmente?... Alguém pode voltar para buscá-lo...não mexa nas coisas dos outros...mas dá uma vontade...

Não tem fechadura. Abro.

Muitos papeis. Palavras soltas: cerimonial, buffet, segurança, música, decoração, convites, daminhas, pajem, cabelo, maquiagem, vestido de mãe de noiva.

Vou retirando um a um. Lanço-os num canto da estrada.

          Resta um: – casamento. No verso, noivo e noiva.
 Fecho o baú. Deixo guardada esta última palavra a germinar outras letras.

          A borboleta azuleia meu caminho. Sigo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Gaveta do tempo



       O puxador era de metal dourado, em forma de U, rebuscado e torneado, um pouco gasto pelo manuseio e pelo tempo. Tomei-o com prazer e receio e, num movimento suave, abri a gaveta da cômoda.   Saltou-me aos olhos um pequeno cartão, com um bebê estampado, que dizia:
Participo o nascimento de Márcia, em Além Paraíba, no dia 29 –01- 1954.
J. C. C. e família.
        Olhei aqueles guardados com olhos de recém nascida: curiosa, novidadeira. Num embrulho amarelado, muitas fotografias: a alegria do primeiro ano, a introspecção da primeira comunhão, a altivez do discurso de formatura na quarta série, as férias com a família, a algazarra dos amigos na praça em V.R.B., a ilusão da fantasia no carnaval, a expectativa no baile de debutante. Registros de infância e adolescência. Saudades de mim.
         Avancei as mãos gaveta adentro e encontrei um pedaço de crochê, tecido com fina linha mercê-crochê, n.0. Renda de minhas invenções a contornar vazios deixados por minhas perguntas adolescentes.Dobrei o trabalho trançado e prossegui.
          Uma partitura se fez ouvir – Primeira carícia, noturno, de C. de Crescenzo. Meus de dos a acariciaram enquanto ouvi-me tocar ao piano treinando as ligaduras de expressão, o uso dos pedais, o pianíssimo.
         Levantei as mãos e vi que estavam sujas de tinta. O tubo fechado e esquecido havia entornado seu conteúdo nos papeis colorindo-os como singelas aquarelas.
Limpei as mãos no pedaço de papel de seda, não sem antes admirar o desenho que serviu e modelo para os bordados das toalhas de mesa de meu enxoval.
          No fundo da gaveta, “Monsieur Vincent embrasse sa femme”, é uma frase da página solta do meu livro de francês do ginásio.Quero estar em Paris, no alto da torre Eiffel.
          Dentro de um envelope pardo um xerox do Decameron, de Bocage, junto com a Ellenika, dos meus estudos de grego arcaico. Outras línguas e a mesma falta de palavras.
           Encontrei num canto da gaveta, meio amarrotado, o texto que escrevi na Oficina de Criação literária.- Meu encontro com Tom Jobim. Sorrio. Cheiro de terra molhada a germinar sementes. Fechei a gaveta.
No movimento, um pequeno recorte de jornal espirrou para fora. Recolhi e li: “Quando mais nada resistir que valha a pena de viver......
Lembra-te que afinal te resta a vida
Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.”
Carlos Pena Filho.
Empurrei o papel gaveta adentro. Fechei os olhos e suspirei. Que venha o acaso.

Márcia Sartorelo Carneiro.
            .


domingo, 10 de abril de 2011

Gato



          Minha amiga tem um gato.Viaja da fazenda à casa da cidade enroscado no banco do carona. A maritaca ela carrega no ombro esquerdo e o cachorro refestelado no banco de trás.
Quem ouve falar fica pensando, e temendo, que o cachorro resolva pegar o gato, e este por sua vez a maritaca e...nem é bom pensar.
Mas eles obedecem ao combinado: cada um no seu pedaço e todos no coração de minha amiga.

          Um dia, conversando ao telefone, ela me disse:
-         Márcia estive matutando...quando eu morrer acho que vou deixar o Dodi de herança para você.
-         Dodi, o gato?
-         É, ele mesmo. Com seu espírito independente você combina mais com gatos...são mais livres, menos apegados ao dono.

          Eu pensei cá comigo: nisto ela tem razão. Não gosto mesmo de cachorro me seguindo para todo lado, obedecendo, abanando rabo, com aquela cara de pidão. O gato é misterioso, arisco, quase rebelde.         .

          Aceitei a herança, na esperança de que ela não morra tão cedo. De preferência depois de mim.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

José



José era carpinteiro.Fazia móveis, caibros e cumeeiras de telhado.

Nos domingos de folga pegava os restos da madeira e esculpia imagens. As mãos calejadas do trabalho duro, com farpas e cortes a marcar a pele, surpreendentemente, pareciam acariciar a peça de imbuia. Os dedos deslizavam pela pele rugosa da madeira fazendo saltar os músculos e veias, formas e vestes de imagens religiosas.

Um dia resolveu fazer sua própria imagem. Mirou-se no espelho da sala, desenhou mentalmente seus traços mais marcantes, buscou a expressão mais santificada e pôs-se a trabalhar.Neste mesmo dia, sua Maria anunciou que estava grávida de um menino enviado por Deus.

José trabalhou com afinco, pois a família iria aumentar, mas nas horas ociosas continuava a lavrar sua imagem com devoção.

Maria tecia e José talhava.

Passaram-se os nove meses. O menino nasceu. O santo José estava pronto.

domingo, 3 de abril de 2011

Menino verão

Meu menino - minha lembrança.
Fotografia na estante.
Só durou um instante.
Só foi verão.
Quente, saliente, ardente.
Roubou goiaba, nadou no rio,
Pescou lambari, riu de repente.
Depois se foi.
Como estação.
Fez-se outono em meu coração.