terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ora, poemas!



       Em minha caixa de correio apareceu uma frase em letras garrafais: PRECISO DO POEMA DE SEUS OLHOS. Em seguida um pedido: continue este poema e deixe-o na caixa.

Preciso do poema de seus olhos
Doce encontro de imagens e silêncios
A interrogar meus sonhos
E escrever seus traços

Preciso do poema de seus olhos
Doce encontro de sombras e cores
A despertar meus dons
E festejar meus amores

        Fiz o poema e, embora o achando meio cafona, o coloquei na caixa de correio conforme pedido deste alguém secretamente romântico.
        Pensei inicialmente que pudesse ser pedido de algum admirador secreto, escritor talvez, que quisesse investigar meus dons literários.
-         Bobagem, menina, deve ser alguma pesquisa para saber se as pessoas aqui da casa sabem ler e escrever, disse Sá Dolores, enquanto coava o café na cozinha de minha casa.
        Meu pai, lendo o jornal na mesa do café da manhã, logo quis saber do que se tratava, e ao ser colocado a par do acontecido, resmungou qualquer coisa parecida com “ vê lá com quem você está se metendo ...não se pode confiar em ninguém nos dias de hoje.”
        Meu irmão, com jeito gozador, e já com o iphone nas mãos a responder seus e-mails, ria deste alguém tão careta que nos tempos da internet ainda se preocupava com cartas, poemas, olhos e caixas de correio tão pouco virtuais.
        Minha mãe, ocupada que estava em nos servir o bolo de fubá com queijo saído do forno, suspirava romântica pelo acontecido. Também, se não der em nada, pelo menos servirá para você treinar sua escrita minha filha, suas notas não andam lá muito boas, disse num repentino tom de realidade.
         Eu olhei todos os dias dos meus quinze anos a caixa de correio. Na primeira semana a carta poema continuava lá. Depois sumiu. Alguém pegou! Nas semanas e meses seguintes eu olhei a caixa de correio pelo menos uma vez por dia procurando uma resposta...ou outro verso que me fizesse sonhar. Nada!
       Hoje, já bem crescida e vivida, ao abrir a caixa de correio encontrei outro verso, a mesma letra. PRECISO DO POEMA DE SEUS LÁBIOS. Tomei o lápis e escrevi ali mesmo: APAREÇA, VENHA PROVAR!
        É noite, o bilhete já não está mais lá e ouço a campainha tocar.




domingo, 20 de novembro de 2011

No mundo da escrita


       
          Era uma vez ...os 3 porquinhos.

          Era uma vez.....uma menininha a recortar as frases, depois as palavras, depois as sílabas, depois as letras do seu primeiro livro de leitura.  Mãozinhas suaves a copiar as formas arredondadas nas linhas paralelas traçadas no papel do seu primeiro caderno de caligrafia..

-         Mamãe, eu já tenho uma casinha, tão acolhedora e protegida. Preciso mesmo sair dela e construir minha própria casa de palha... de madeira...de tijolo? Preciso mesmo me confrontar com o lobo, correr, fugir, me estremecer?

-          ..........................

-          Mamãe, eu vou...casinha derrubada no sopro, casinha erguida na garra. Eu vou. Não tem mais jeito de voltar. Eu já aprendi a escrever.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ah! mar



          Numa tarde de verão, eu,turista em Salvador, andava pela praia de Itapuã  e me lembrava de Caymmi,cantarolando: o mar quando quebra na praia é bonito, é bonito....
O sol se punha preguiçosamente e a brisa era fresca e perfumada.

           Avistei ao longe uma morena bonita que ia em direção ao mar. Será Dora, rainha do frevo e do maracatu...ou Marina, morena Marina...ou Gabriela, cravo e canela...ou Rosa Morena do mar?
-         onde vais morena Rosa, com esta rosa no cabelo e este andar de moça prosa?
Ela nem me olhou tão interessada estava no pescador que vinha arrastando o barco para colocá-lo na água.

           Foi então que pude ouvi-lo dizer:
-         minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar, meu bem querer. Se Deus quiser quando eu voltar do mar , um peixe bom eu vou trazer....
Ela suplicante pedia:
-         é noite , é noite pescador não vai pra pesca que é noite de temporal.....
Ele, entre irônico e preocupado, respondeu:
-         é doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar....

          Conformada com o espírito aventureiro do amado ela se despediu num adeus, adeus, pescador não se esqueça de mim, eu vou rezar pra ter bom tempo, meu bem, pra não ter tempo ruim. Vou fazer sua caminha macia, perfumada de alecrim.
E depois de um longo beijo ele partiu.

          Fiquei ali perto de Rosa até o barco sumir na linha do horizonte junto com o sol e seus últimos raios. Um temporal se formava e nos despedimos correndo cada um pra sua morada.

         Amanheci na praia, pois era meu último dia de férias e lá encontrei Rosa rodeada de pescadores amigos. Em prantos a ouvi dizer:
-         saveiro partiu de noite foi, madrugada não voltou. O marinheiro bonito , sereia do mar levou. Ele se foi afogar , fez sua cama no mar, nos braços de Iemanjá..
.
          Consternado pensei que pescador quando sai nunca sabe se volta , nem sabe se fica. Quanta gente perdeu seus maridos, seus filhos nas ondas do mar.
  Enquanto isto Rosa gritava:
-         só louco amou como eu te amei, só louco  quis o bem que eu quis....

          Sentei-me na areia fina e emocionado vi que a pobre Rosinha da Chica, que era bonita, agora parece que endoideceu. Vive na beira da praia, olhando pras ondas, andando, rodando, dizendo: morreu, morreu... 



sábado, 15 de outubro de 2011

Arrayan




          Assentada na varanda da casa estilo inglês, tomava chá de rosa mosqueta e admirava a beleza do lago Lácar, na Patagônia Argentina.

          Imaginei-me uma tal Elizabeth, no início do século XX, recém chegada aos arredores de San Martin de los Andes, a escolher um local de visão paradisíaca para construir sua casa. Ele estava comigo a comandar os trabalhadores no encaixe perfeito das toras de madeira que formavam as paredes da casa. Eu bordava as cortinas para enfeitar as vidraças das muitas janelas que permitiam a entrada do verde dos pinheiros e do brilho das eternas montanhas nevadas.

          Um vento frio me devolveu a mim mesma e pude escutar o riso solto de minha filha e genro a saborear as média lunas adocicadas do lugar. Nossa companheira de viagem continuava fotografando cada centímetro quadrado da cordilheira dos Andes como uma topógrafa seriamente dedicada a seu trabalho.

          Voltei a ser Elizabeth e a conversar com os primitivos habitantes do lugar tentando aprender a língua mapuche e me divertindo com aquele povo alegre e despreocupado. Paihuen....lugar de descanso, eu repetia. Arrayan...último raio do pôr-do-sol. Curioso que um povo tenha uma palavra para designar o último raio do pôr-do-sol. Lindo isto, eu pensava.

          De novo, as vozes de meus companheiros de viagem me fizeram voltar àquele presente. -Venha, mãe, ver o sol se por atrás das montanhas nevadas, jogando prata sobre o lago Lácar e fazendo contraste luz e sombra sobre a cidade e suas matas!

          E eu vi ...arrayan....naquela tarde de primavera.

          A noite caiu e ao longe Elizabeth acenava se despedindo num gesto silencioso e delicado.


03 de outubro de 2011.

domingo, 18 de setembro de 2011

                                                             
                                                               O tucano
                                                           leva para voar
                                                      nosso olhar colorido.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

No inverno mineiro
A vida queima indefesa
No cerrado em flor.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Rapunzel em nova versão

     


          Era uma vez um sítio chamado Sítio do Pica-pau amarelo. Lá ficava um lindo castelo de onde todos os dias, Rapunzel, ao acordar, jogava suas longas tranças pela janela para que seus amiguinhos pudessem entrar e tomar o café da manhã com ela.
          Ao som dos músicos de Bremen a algazarra estava formada, junto com uma fila interminável a subir por aquela trança-escada ( devo dizer que o castelo não tinha portas e este era o único meio de entrar e sair - só Rapunzel não podia, pois quem serviria de trança para ela subir e descer?)?
Mas mesmo assim era uma festa ver o Gato de Botas todo faceiro, o tristonho patinho feio a se esconder atrás do fogão, Peter pan e sininho brincando de esconder (estes, como podiam voar não usavam as tranças). A Branca de neve sempre ia, mas recusava todas as maçãs que eram servidas, e os anões entoavam coro enquanto esperavam pelas guloseimas.
 D. Benta e tia Anastácia, apressadas na cozinha, preparavam os quitutes enquanto o Visconde de Sabugosa planejava com o Rabicó uma maneira de tirar Rapunzel do castelo onde vivia presa.
E todo dia a cena se repetia.
         Quem a teria colocado ali, a exercer esta função de escada, se perguntavam os visitantes do castelo.
-         Acho que foi a madrasta, dizia a Gata Borralheira, para que não se casasse com o príncipe. Só queria que ela trabalhasse de escada.
-         - Acho que foi o lobo mau, dizia outro, para que ela não fosse dar passeios na floresta com sua amiga Chapeuzinho vermelho.
-         Ora, certamente foi o Capitão Gancho, dizia Wendy, aquele malvado queria vê-la presa enquanto velejava pelos sete mares pilhando outros navios.
-         Talvez algum dos três porquinhos, aquele mais atrapalhado, que construiu o castelo e não colocou porta para o lobo não ter onde bater.
        E assim os dias se passavam e Rapunzel, que no início era só alegria ao receber seus amiguinhos, foi ficando triste e pensativa, Queria ela mesma conhecer o mundo do qual só tinha notícias pelo que contavam no café da manhã. Era assim como um jornal falado ao amanhecer.
         Seus amiguinhos, comandados pelo Visconde de Sabogosa se mobilizavam para criar estratégias para tirá-la dali.
-         Quem sabe plantamos um pé de feijão que possa trepar pelas paredes e servir para a escalada, se perguntava o Joãozinho.
-         Vamos jogar nela o pó de Pirlimpimpim, dizia Peter pan, aí ela poderá voar.
-          Melhor seria trazer um príncipe de terras distantes que a tomasse nos braços e a levasse daqui, suspirava Branca de Neve, Ele resolveria o problema, pois para isto são feitos os príncipes, emendava.
-         Até o Gato de Botas pensou em emprestar-lhe as botas, que facilitariam o pulo, mas era uma solução provisória. E depois, botas, pulos e aquela trança enorme não combinavam, ia embolar tudo.
Até soluções mais práticas e menos fantasiosas foram aventadas:
-         Vamos furar um buraco no castelo para servir de entrada e saída. É mais prático, diziam uns.
-         Acho melhor construirmos uma escada de madeira e colocar na janela, diziam outros.
As fadas do reino solidárias, mas sem grandes ideias de salvação lhe deram um tear para que ela pudesse se distrair nas horas vagas e quem sabe tramar alguma coisa.
         E assim, Rapunzel passava os dias, a encontrar seus amigos no café da manhã e a tecer nas outras horas. Até que um dia, inadvertidamente, espetou o dedo no fuso do tear e, ao contrário da Bela Adormecida, isto serviu para acordá-la.Ao ver o sangue jorrando e aquela dorzinha ardida, ela se perguntou:- mas o que me prende a este castelo? Como posso sair daqui?
          E Rapunzel percebeu que o que a prendia àquele castelo eram, justamente, suas tranças. Cortou-as. Que alívio. Estava agora mais leve, os cabelos curtos e soltos.Pegou suas tranças, amarrou-as na janela e foi descendo por elas. Saltitou pelo jardim, dançou, rodopiou e se alegrou. Tomou emprestada a carruagem da Cinderela e saiu dirigindo para tomar seu café da manhã na padaria da esquina
      E aquele foi um momento feliz para sempre.