domingo, 5 de agosto de 2012

De rio e mar

 



     Marina queria conhecer a foz do Rio São Francisco. De um tempo para cá só falava nisto, era foz para lá, foz para cá. Não sabia bem o porquê de tanto desejo, mas era desejo dos bons, decidido e pronto. Dizia que foz é fim de travessia - rio que termina no mar. Dizia que foz é encontro – duas águas que se misturam.
     Contava que quando criança seus pais a haviam levado para conhecer a nascente do rio, na serra da Canastra. Um broto de água e um filete a escorrer tímido entre pedras. Molhou os pezinhos, lavou o rostinho e bebeu o doce das águas. De mãos dadas com os pais viu nascer o rio e o riso.
     Contava que na juventude havia navegado em suas águas de Pirapora a Januária. O vapor Benjamim Guimarães a levara, junto com seus sonhos e amores, entre o nascer e o por-do-sol, entre o apagar das luzes e o brilho da lua cheia. Deslizou na lâmina prateada, viu peixes saltitando, viu ribeirinhos entrando e saindo com suas sofridas vidas, crianças correndo nas margens em abano de mão ou venda de doces.
     Soube, então, que as águas que passavam nunca eram as mesmas. Acontecimento único, singular.
     Agora, nos idos de seus cinqüenta e poucos anos, Marina foi à foz e me contou. Em Alagoas, estado de lindas praias, longo e belo litoral, tomou um barco e navegou velho Chico adentro. Margens largas abraçavam águas caudalosas, límpidas e potentes. O barco rompia sereno a lâmina da superfície, e enquanto Marina olhava aquele mundo líquido, um êxtase tomou conta de seu corpo. Um instante e ela era água e rio. E riso!
     Dunas de areia fina e dourada emolduravam o encontro de rio e mar. Coqueiros lançavam uma pitada de verde sobre o ouro.
O barco cada vez mais próximo...e a foz se fez encontro belo e bom!
     Marina me disse que esperava encontro mais agitado, quase desencontro, confessou. Mas o que viu foi encontro doce e sereno. O velho Chico foi chegando forte, mas manso. Virou mistura de rio e mar, mais mar, agora. E riso!
     Marina lançou-se em suas águas ainda doces, mergulhou, sentiu o frescor e o sabor de suas águas e repousou no leito denso do rio.
     Depois, estirada em suas margens de douradas dunas, Marina disse baixinho:... e a foz se faz de sonho e nada mais!
 Foi assim que ela me contou. E rio!

terça-feira, 3 de julho de 2012

Uma gaiola nas asas



           Passeio minha manhã de segunda-feira pela pracinha do bairro.
 Caminho decidida a me encontrar no fim das 20 voltas com algumas calorias a menos e um tanto de energia a mais.
          À minha volta vejo as mesmas pessoas de sempre: as duas irmãs que não param de falar, cheias de tanto assunto, a dona dos dois cachorros, um na coleira, junto dela e o outro desfilando sua elegância e independência pelas ruas e calçadas. Vejo também o velhinho de passos lentos, o casal de mãos dadas, a senhora procurando companhia para comentar as novelas, os jovens exibindo-se na corrida, os carrinhos passeando os bebês e seus pais, as crianças desfilando seus velocípedes ou bicicletas, o médico-jardineiro regando suas rosas no jardim do consultório, o piano que soa ao longe ensaiando escalas maiores e menores , as maritacas em voo e gritos e tantas rotinas mais.
            Hoje, um acontecimento se fez.
            Era uma senhora, de seus 50 anos, magra, tamanho mediano, cabelos anelados e curtos que passou por mim. Trazia apoiada no ombro esquerdo uma gaiola de madeira. Dentro um passarinho, canário talvez, cantava. Achei que ela estava só passando pela praça, em direção à sua casa ou outro lugar qualquer. Mas surpresa vi que ela passeava pela praça e apontava para as árvores, mostrando-as para o pássaro. Conversando com ele apontava o céu, o vento, o espaço da cidade.
            E o pássaro olhava.
 Não se debatia querendo romper as grades e rasgar o espaço. Estava domesticado. Ela apontava. Ele olhava e cantava.
            Coisa mais triste!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Viagem à Cordisburgo






Pelos caminhos do Rosa

Ouvi contos e berrante
Lacei bezerro no olhar
Fugi do fogo do mato
Virei a vaca tô frouxa

Vi uma pitada de verde no azul do céu

Vesti a sombra do jatobá
Pisei chão de pedregulho
Cheirei  até cajá-manga
Caminhei com os amigos

E encontrei no sertão o sozinho.


sexta-feira, 2 de março de 2012

Areia

Não era só uma cabeça humana...
Hoje voltei lá.
E vi.
Era algo assim...
 Humanamente frágil.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Fênix




Abri o caderno.
Qual fênix renascida, as cinzas me olhavam esperando trabalho.
Era quarta-feira de cinzas.
Para lembrar que somos feitos de pó - pó de estrelas, pó de cinzas, pó de areia.
Morte e renascimento.
Esperei atenta.
Silêncio.
.Hoje, ao voltar da academia, passei por uma calçada em reconstrução.
Próximo ao entulho, restos de pedras portuguesas da antiga calçada, um monte de areia e brita esperavam para serem trabalhadas na feitura da nova calçada.
Mas um homem se ajoelhara sobre o monte de areia e moldava, com suas mãos e a ajuda de um pouco d’água, uma cabeça humana.
Parei e olhei.
Suas mãos ágeis esculpiam o contorno dos olhos, nariz, boca.
Acabado o trabalho, levantou-se, sacudiu a areia da roupa e foi-se.
Pó de estrelas, pó de cinzas, pó de areia, pó de criar, pó(iesis).

sábado, 31 de dezembro de 2011

Imaginação



          “Caminhava quando ela passou por dentro de mim. Olhei para trás, ela exibiu asas enormes e voou em direção ao sol. Fui atrás, mas não adiantou, não tinha asas. Continuei caminhando, cruzei com um sujeito que pensava alto.”
          Entrei no parque municipal e admirei as árvores. Assentei-me no gramado e procurei por ela. Tirei papel e lápis de dentro da mochila e esperei que ela voltasse.
          Senti caírem do céu pequenos fragmentos de cinza que sujaram o papel.  Minha imaginação havia queimado suas asas enormes ao se aproximar muito do sol.
Soprei as cinzas, fechei o caderno e pensei:
-         também quem manda querer voar assim tão alto!


( a frase entre aspas é de R. Claver)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ora, poemas!



       Em minha caixa de correio apareceu uma frase em letras garrafais: PRECISO DO POEMA DE SEUS OLHOS. Em seguida um pedido: continue este poema e deixe-o na caixa.

Preciso do poema de seus olhos
Doce encontro de imagens e silêncios
A interrogar meus sonhos
E escrever seus traços

Preciso do poema de seus olhos
Doce encontro de sombras e cores
A despertar meus dons
E festejar meus amores

        Fiz o poema e, embora o achando meio cafona, o coloquei na caixa de correio conforme pedido deste alguém secretamente romântico.
        Pensei inicialmente que pudesse ser pedido de algum admirador secreto, escritor talvez, que quisesse investigar meus dons literários.
-         Bobagem, menina, deve ser alguma pesquisa para saber se as pessoas aqui da casa sabem ler e escrever, disse Sá Dolores, enquanto coava o café na cozinha de minha casa.
        Meu pai, lendo o jornal na mesa do café da manhã, logo quis saber do que se tratava, e ao ser colocado a par do acontecido, resmungou qualquer coisa parecida com “ vê lá com quem você está se metendo ...não se pode confiar em ninguém nos dias de hoje.”
        Meu irmão, com jeito gozador, e já com o iphone nas mãos a responder seus e-mails, ria deste alguém tão careta que nos tempos da internet ainda se preocupava com cartas, poemas, olhos e caixas de correio tão pouco virtuais.
        Minha mãe, ocupada que estava em nos servir o bolo de fubá com queijo saído do forno, suspirava romântica pelo acontecido. Também, se não der em nada, pelo menos servirá para você treinar sua escrita minha filha, suas notas não andam lá muito boas, disse num repentino tom de realidade.
         Eu olhei todos os dias dos meus quinze anos a caixa de correio. Na primeira semana a carta poema continuava lá. Depois sumiu. Alguém pegou! Nas semanas e meses seguintes eu olhei a caixa de correio pelo menos uma vez por dia procurando uma resposta...ou outro verso que me fizesse sonhar. Nada!
       Hoje, já bem crescida e vivida, ao abrir a caixa de correio encontrei outro verso, a mesma letra. PRECISO DO POEMA DE SEUS LÁBIOS. Tomei o lápis e escrevi ali mesmo: APAREÇA, VENHA PROVAR!
        É noite, o bilhete já não está mais lá e ouço a campainha tocar.