terça-feira, 22 de outubro de 2013
sábado, 5 de outubro de 2013
Uma mulher
Estudava
psicanálise com afinco. O tema preferido era o que se dizia das mulheres.
Deitou-se no divã anos a fio. Teceu ares de
seu ser mulher.
Até que
escutou a frase : uma mulher não é uma mulher, se não tiver um bom vestido!
Estava
resolvido! Largou a psicanálise, largou o divã .
Foi vista de
loja em loja a procurar seu bom vestido!
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Margem escrita do rio
Meu marido não
falou palavra. Entrou naquela canoa, adentrou o rio feito jacaré deslizando em
águas e partiu. Sim, partiu de ir embora, partiu de fazer corte. “Cê vai, ocê
fica, você nunca volte”, gritei! Vai pedaço de mim que boia no oco do pau nas
águas do rio...vai!
Não foi por causa
de mulher- outra. Não foi por desavença ou desamor. Mas foi! Me faz
estranhezas, isso de não ter motivo. Me prende às margens olhando o vulto,
alimentando o aguado.
Ficamos.
Três filhos e eu. Quis que não falássemos mais nele. Mas pensávamos. E
sem palavras não podia haver esquecimento. Um vulto de chapéu em canoa no rio
abaixo, rio acima, rio afora é coisa de não se esquecer. É quadro que fixa
ausência – presença na paisagem.
As crianças em
sobressaltos seguiram vidas. Só o mais novo é preso ao pai. Preso de querer ir
com ele água adentro, preso de querer entender o silêncio do pai.
Você nunca volte,
eu tinha dito. Mais para parecer que era minha a última palavra e certa de que
o desejo era dele. Ficar ali no desconhecido da vida, no sem margem, sem terra
firme, sem porto de chegar. E eu ali, agarrada à terra barrenta da margem do
rio, no porto seguro, no previsível da vida.
Filho mais novo
quis trocar de lugar com ele, mas hora certa deu de correr e se afastar. Virou
homem depois deste falimento. Ganhou mundo carregando suas incompletudes.
Agora, resto eu
aqui, de costas para o rio, de costas para o vulto morante em águas, querendo,
eu mesma, partir.
Partir de ir
embora. Partir de fazer corte, talho, escrita na terra da margem do rio.
Márcia Sartorelo Carneiro
passeando por- A terceira margem do rio, J. Guimarães Rosa.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
De vinhos e queijos
Ele era tinto- pele vermelha de
descendência indígena. Encorpado, malhava diariamente na academia do bairro. De
humor ácido e taninoso, às vezes apresentava-se com sabor doce no final. Chamava-se
Vinho,. Malbec o sobrenome.
Ela, Lua, tinha uma aura branca ,
leitosa, aparentava a textura de um queijo.
Como toda mulher tinha fases – às vezes inteira, radiante, outras,
tímida, em delicado fio de esperança crescente. Outras, ainda, silenciosa e
desapercebida.
Lua era etérea, vivia no mundo da
lua e morava na boca da noite.
Malbec tinha raízes terrenas mas
às vezes ficava “alto”, parecia flutuar e cambaleava.
Vinho admirava sua pele alva e
seu brilho próprio. Desejava encontrá-la pois pareciam formar um belo par.
Lua , com ar superior, circulava desenvolta
pelo céu, cumprindo sua rotina , mas , no fundo, esperava que, algum dia,
alguém a tirasse daquela mesmice, e fantasiava: quem virá provar o queijo da
lua? Ele, com sua flexibilidade quase líquida ( trabalhada nos alongamentos da
academia de ginástica), se contorcia tentando arranjar um jeito de alcançá-la.
E pensava: como me aproximar e provar o queijo da lua?
Construiu escadas, planejou
foguetes, subiu árvores, voou pássaros, sonhou nuvens e nada.
Vinho cá...Lua lá...
Ele olhava...ela procurava...
Malbec, às vezes, se embriagava,
e, nesta hora, quase podia tocá-la, de tão “alto” que chegava. Nestas horas ,
pareciam se encontrar no mundo da lua. Via-se, então, no canto da boca da
noite, sorrateiro, escorrer um fio de vinho em mistura de queijo.
Mas ,logo, a sobriedade chegava e
Malbec , sempre a contornar o impossível, perguntava: como me aproximar e
provar o queijo da lua?
Um eco parecia responder: quem
virá provar o queijo da lua?
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Ipê
Há treze anos olho os ipês amarelos
que florescem neste mês
em que tu partiste.
Certa de que não voltas,
colho de tua ausência estas flores
e um lamento triste.
domingo, 21 de julho de 2013
O menino é o pai do homem
O menino quando brinca,
faz peraltices,
desobedece,
é punido pelas teimosias,
empina pipa colorida no céu,
se arrisca nadando no rio,
se aventura na mata próxima,
enfim, quando vive,
cria o homem que será ao crescer!
O menino que morre cedo,
não pode ser o pai do homem.
Ficou só menino.
Criou meninice.
Tudo que acontece ao menino faz viver o homem.
O menino que morre cedo,
confronta o homem com a finitude!
Márcia Sartorelo Carneiro.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Lamento II
Quisera eu, feito
Rosa,
Estar só como os
gatos e árvores. Não o só da solidão; mas o só da solistência.
Mudar sempre por não
estar ainda terminada.
Ficar largo e
profundo como o rio, sem pressa de chegar.
Desconfiar de muita
coisa por quase nada saber.
Ficar encantada e não
morrer.
Seguir veredas no
grande sertão.
Apanhar silêncio dum
sentimento.
Viver como descuido
prosseguido.
Ter natureza de não
caber em certeza nenhuma.
Acreditar que eu
mesmo seja um conto contado por mim.
Mas ao rasgar-me e
remendar-me, em questões de poesia,
Encontro só pétalas!
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