segunda-feira, 7 de abril de 2014

De longe, de fora, de dentro daquela casa



Do restaurante via-se a parte dos fundos da casa. O muro de pedra,  visto de longe, suportava a parede branca circundada pela varanda. Também se avistava o quintal, a jabuticabeira e as flores. Tudo isto se destacava entre as casas que escorrem pelos morros na paisagem ondulada de Ouro Preto.

Cortava o ar o som das marchinhas de carnaval e o agitar dos braços dos foliões.

Quando entrei na casa, logo depois que a simpática senhora nos convidou para a visita, fui direto para o jardim- quintal. Pequenas flores enfeitavam os canteiros. Colhi algumas para (depois de secas) customizar meu caderno – abrigo da escrita- construído na oficina de verão.

 De súbito, o gato bichano Bishop, de um salto, abocanhou um lagarto que escalava o muro e o rasgou com dentes afiados.  Assustei-me com aquela cena inusitada onde um gato escancarava toda sua animalidade diante de meus olhos tão domesticados. Apressada, desvencilhei-me da agonia e corri para chupar umas jabuticabas doces e fora de época que amadureciam agarradinhas aos galhos da árvore.

Ali perto, mostrava-se imponente, o caldeirão onde Brushop – assim imaginávamos - fazia suas feitiçarias em caldos poéticos. Também os lírios, copos de leite, antúrios vermelhos e vegetação abundante se alastravam num convívio equilibrado e despretensioso.

Cortava o ar o som do riacho que despencava entre pedras, do outro lado da casa, em cadência meditativa.

Lá dentro meus companheiros de viagem observavam as camas, dosséis, quadros, objetos de decoração, retratos, escrivaninhas, armários...Para mim tudo meio morto, meio coisa...

Só o patinho de borracha amarelo na banheira Bishop nadava sua americanidade, alheio aos visitantes e freqüentadores do banheiro. Parecia vivo o estrangeiro em terras brasileiras. Parecia tão conterrâneo em terras estrangeiras. Teria sido assim com Elizabeth Bishop?

A pergunta ainda ressoa dentro de mim.




Márcia Sartorelo Carneiro

segunda-feira, 10 de março de 2014

Primeira casa





Minha primeira casa - os braços de minha mãe
os laços - tantos.
Minha primeira casa - nos traços de minha mão
os espaços - brancos.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O beco



O beco sem saída
é o beco da saída.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Peras psicodélicas



Assento no banco da praça. Olho os passantes distraída. As maritacas conversam animadamente nas árvores. Os cães passeiam seus donos. Os manacás primaveram cores e perfumes.

Avisto duas senhoras, meia idade, que fazem sua caminhada matinal. Usam bermuda colada nas pernas finas e amplas blusas coloridas e estampadas cobrindo a parte superior do corpo gordo e banhudo. Lembram peras psicodélicas.

Caminham e conversam, arfam e avançam decididos passos no intuito de perder calorias. Observo de longe. Quando passam perto do banco onde me encontro ouço lasanhas e molhos, doces de manga talhada para aproveitar a fartura da época, e recomendações médicas sobre alfaces e melancias, caminhadas e academia. Fragmentos de conversas sobre netos , filhos e noras.  Escuto uma ponta de mágoa dirigida ao marido, desconfiança, traição, talvez... Aguço os ouvidos. Uma jovem secretária que se insinua ...nua...

 De repente o barulho da sirene do carro de polícia invade a praça. Estacionam e abordam as duas peras psicodélicas. Conversam, gesticulam, mostram documentos.

Meu Deus, o que aqueles policiais fazem nesta história?! Eles eram personagens de outro conto que estou escrevendo e aparecem assim, sem aviso, intimidando duas senhoras que,simplesmente, caminham sua boa reputação pela praça!

Aproximo da cena e chamo os policiais pelo nome- sargento Rodrigo, cabo Walerson! Parecem me ignorar. As senhoras amedrontadas perguntam sobre a acusação que têm contra elas. Chamo de novo pelo nome, grito, pego uma borracha para desmanchar, uma caneta pra riscar, aperto a tecla deletar. Ignoram-me fortemente.

Colocam as senhoras na viatura e arrancam cantando pneus. Estarrecida ouço a sirene desaparecer ao longe. Meus personagens não são mais meus!

No dia seguinte, no mesmo banco, abro o jornal e leio, no caderno policial, a manchete:

Policiais enciumados prendem peras psicodélicas sob acusação de roubo de palavras e da dedicação do escritor às suas próprias histórias.

E sob a fotografia das duas coloridas lia-se:

 De volta à liberdade e à praça as senhoras se comprometeram a levar sua vidinha medíocre sem desejo de participar de quaisquer histórias ou aventuras.


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Encontro com Cora Coralina



Feito Cora encontrei-me mulher

Na montanha escalada da vida.

De revés, não removi pedras,

Apenas convivi perdas.

O tempo ensinou.

A mão semeou.

E o olhar viu flores

Se esgueirando

Entre pedras.

 Perdas

E dores.
                                                                                        

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Turandot




                                                    Ah, Turandot!
                                               O enigma do amor,
                                                    A tua dor!

sábado, 5 de outubro de 2013

Uma mulher


Estudava psicanálise com afinco. O tema preferido era o que se dizia das mulheres.

 Deitou-se no divã anos a fio. Teceu ares de seu ser mulher.

Até que escutou a frase : uma mulher não é uma mulher, se não tiver um bom vestido!

Estava resolvido! Largou a psicanálise, largou o divã .

Foi vista de loja em loja a procurar seu bom vestido!