segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ipê



Há treze anos olho os ipês amarelos
que florescem neste mês
em que tu partiste.

Certa de que não voltas,
colho de tua ausência estas  flores
e um lamento triste.

domingo, 21 de julho de 2013

O menino é o pai do homem


O menino quando brinca,
faz peraltices,
desobedece,
é punido pelas teimosias,
empina pipa colorida no céu,
se arrisca nadando no rio,
se aventura na mata próxima,
enfim, quando vive,
cria o homem que será ao crescer!
O menino que morre cedo,
não pode ser o pai do homem.
Ficou  só menino.
Criou meninice.
Tudo que acontece ao menino faz viver o homem.
O menino que morre cedo,
confronta o homem com a finitude!


Márcia Sartorelo Carneiro.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Lamento II



Quisera eu, feito Rosa,

Estar só como os gatos e árvores. Não o só da solidão; mas o só da solistência.

Mudar sempre por não estar ainda terminada.

Ficar largo e profundo como o rio, sem pressa de chegar.

Desconfiar de muita coisa por quase nada saber.

Ficar encantada e não morrer.

Seguir veredas no grande sertão.

Apanhar silêncio dum sentimento.

Viver como descuido prosseguido.

Ter natureza de não caber em certeza nenhuma.

Acreditar que eu mesmo seja um conto contado por mim.

Mas ao rasgar-me e remendar-me, em questões de poesia,

Encontro só pétalas!


                                                                                                               

sábado, 25 de maio de 2013

Crônica de domingo



Pela manhã vesti-me de esportista e saí para uma caminhada no parque municipal. Tomar o sol da manhã, sacudir o esqueleto e absorver a vitamina D eram meus objetivos mais saudáveis – pulsão de vida!

Seguindo a balaustrada da Rua Sapucaí  leio um cartaz afixado num poste:  curso de escatologia – tempo do fim. Minha visão embaralhou, o poste perdeu sua ereção eterna e minha vertigem postural benigna me fez abraçar aquele falo em riste. Tentando me manter de pé, fiquei ali por alguns segundos até recuperar meu equilíbrio. Segui meu caminho pensando se deveria fazer o tal curso que se me apresentou assim como um reflexo no espelho. Esclareço, me vi chegando aos sessenta anos – em curso, o tempo do fim. Nova vertigem.

No parque municipal uma limusine do Funeral House anunciava que _ Aqui Jazz_ com Take Five e Babaya, patrocinado pelo Bosque da Esperança, Parque Renascer etc.
Brincadeira , pensei! Já havia esbarrado na escatologia e agora jaz, funeral, esperança, renascer! Cadeiras arrumadas, palco pronto,músicos tomando seus lugares.

Assentei. Puxei a cadeira para a sombra porque já estava cheia de vitamina D e precisava proteger  a pele do sol de depois das dez. Vi de longe alguns amigos acenando mas não me mexi. Queria ficar ali com aquela inominável sensação de fim.

Até que escutei os primeiros acordes do sax, até que escutei a voz aveludada da Babaya e o cio da terra me fecundou, colhi lágrimas e com elas o milagre da emoção. A música tomou conta de todos, que cantávamos, que dançávamos juntos e separados. Nem me lembrei mais das coisas finais que encontrei pelo caminho. No final de cada música, só o estalar das palmas, os gritos, confraternização, vida!  Ainda, no final de tudo, enquanto me agitava ao som de Sonho de Carnaval, olhei para a limusine do funeral e vi, refletida no espelho, uma silhueta rebolativa e alegre, parecida comigo. Batia palmas!

Agora,que a tarde chega, é só esperar a final do campeonato mineiro – outro final! Palmas para o Atlético!!!

Revendo o texto , à noite, depois de saborear uma pizza com minha família, fui assaltada por uma pergunta: - será que o curso de escatologia inclui o aprendizado de bater palmas?



Márcia Sartorelo Carneiro

sábado, 4 de maio de 2013

Lamento




Quisera eu, feito Barros,

“Alucinar palavras”

“Fazer delirar os verbos”

“Ser salvo por não me achar”

“Fotografar perfume”

“Morar meus abismos”

“Ter profundidades sobre o nada”

“Escutar a cor dos passarinhos”

“Retirar semelhanças de árvore comigo.”

Mas ao “lamber palavras”

Encontro apenas água e terra.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Palavras e coisas






Eu sou a pedra no meio do caminho!
Aquela que o poeta versou.
Vivo em bocas literatas.
Minha existência é metafórica.
 Muitos, vi voltarem desesperados seu caminho.
Outros,vi contornarem indecisos minhas arestas.
Tantos outros, vi paralisados diante do poder a mim atribuído.
Oh! Retinas fatigadas!
Queria mesmo ser pedra preciosa.
Destas que moram no colo das mulheres a emprestar-lhes seu brilho.
Ou perambulam pelos ares presas aos anéis em dedos móveis.
Ou adormecem nos furinhos das orelhas macias.
Mas eu sou a pedra no meio do caminho!
Não sou coisa dependurada, objeto de decoração, enfeite.
Sou palavra inventada, escritura forjada, acontecimento.
Melhor assim.
Nunca me esquecerei.
Eu sou a pedra no meio do caminho!





terça-feira, 9 de abril de 2013

Casa dos milagres



      No alto de uma falésia a beira mar, ergueu-se uma capela chamada de Nossa Senhora das Pedras. Era o ano de 1763, no litoral sul da Paraíba. Contam que um navio português quase naufragou naqueles mares e a capela foi construída, em agradecimento, pelos sobreviventes.

      Hoje o nome mudou para Nossa Senhora da Penha e uma igreja maior foi construída, ao lado, para receber os peregrinos que fazem longas caminhadas movidos pela fé e devoção à santa. Mas a pequena capela continua lá, singela e fresca, com vista para o mar.

      Passei lá outro dia. Estava vazia; o sol forte, a vista bela, muitos avisos de não acender velas e muitas velas acesas a iluminar os avisos. Andei pelos arredores e encontrei uma casa, portas e janelas abertas, nome escrito na fachada : casa dos milagres.

      Entrei num salão bem grande, com três bancadas enormes, duas nos cantos e uma no centro. Vi primeiro a do centro, cheia de casas. Miniaturas. Umas pequenas, outras maiores, de papelão, madeira, com varanda, chaminé, outras de um cômodo só ou de quatro quartos. Empilhadas. Feito favela no morro, escalavam umas às outras, se segurando e equilibrando não sei como. À minha direita, muitas próteses, pernas, braços, cabeças, mãos de cera , uniformes de policial, avental de enfermeira. À esquerda, muitas fotografias, centenas. Uma me chamou atenção . Era uma propaganda eleitoral de uma candidata a vereadora. Eleita; fiquei sabendo depois.

      Incontáveis milagres, histórias de dor e superação ali expostas para meu espanto e certo incômodo. Restos da fé.

      Enquanto eu olhava com curiosidade cada peça e imaginava seus segredos, uma senhora entrou trazendo pequeno objeto, que depositou junto às casinhas. Olhei. Era uma pérola. Ela saiu se dirigindo à capela para rezar. Segui-a. Fiquei do lado de fora. Assentada numa pedra na encosta eu olhava o mar em seu infinito azul e me perguntava sobre aquele objeto, tão inusitado, deixado na casa dos milagres. Uma casinha lá deixada dava para entender...remetia à aquisição de uma moradia, pelo devoto; se financiada pelo Minha casa, minha vida, então, verdadeiro milagre! Uma perna de cera também  podia  resultar da cura de alguma erisipela no precário hospital municipal- outro verdadeiro milagre!

Mas, e a pérola?

      Escutava o barulho das águas se arrastando nas pedras quando a senhora, tendo acabado sua reza, assentou-se ao meu lado. Olhei-a como uma interrogação e ela, com serenidade, me disse: quando entra um grão de areia ou outra substância indesejável no interior da ostra, as células de nácar começam a trabalhar e cobrem o grão de areia com camadas para proteger o corpo indefeso da ostra. Esta ferida cicatrizada é a pérola!  Joia feita de trabalho, de bordado da dor. Assim aconteceu comigo.

      A água do mar espumava seu riso, a prata do entardecer se derramava no infinito, sua mão se abriu em concha e nos cumprimentamos com emoção.