sábado, 27 de setembro de 2025

 

Cena I

 

Abro a janela

Uma paisagem no incômodo de meus olhos

Casinha de lona preta

Vida quase escondida

Quase nua

Espalhada pela calçada

Aproximo o binóculo

Devasso a pobreza

Afasto a repulsa

Vejo o cachorro que entra e sai da lona preta

Dá voltas

Fareja inseguranças

Faz a ronda

Pombos circulam migalhas

O homem sai, amassa latinhas

A mulher sai, sacode panos

O homem entra, a mulher entra

Ajusto o foco

O cachorro late para mim

Recuo.  Fecho a cortina.


Cena 2

Ouço choro de criança

A mãe empurra um naco de pão

“upa neguinho começando a andar...”

O olhar do menino me interroga

Que lhe podem ensinar?

Amassar latinhas feito o pai?

Fumar uma pedra de crack feito a mãe?

Nenhum rei para lhe visitar

Só estrelas de graça a olhar

São libertos, sem norte

Acorrentados à própria sorte

Os olhinhos negros insistem

Recuo. Fecho a cortina.

 

Marcia Sartorelo

17/102022

 

 

 

                                                                     

terça-feira, 23 de setembro de 2025

 

ARRUMADEIRA

 

 

Toca a campainha em desespero. Porta aberta, entra meio ressabiada. Vai direto para o quarto e já começa a arrumação.

Abre as caixas e espana tudo para o chão. Às vezes escolhe um ou dois objetos e os dispõe despretensiosamente em outro cômodo.

Os livros da estante, simetricamente enfileirados, depois de abertos, folheados e investigados, também são varridos de seus lugares direto para o chão. Aquele em que o lobo mau aparece tem suas páginas esfregadas e torcidas com violência.

As bonecas, ah, as bonecas! Estas, de assentadas ou deitadas na cama ou na casinha de papelão, depois de ninadas, despidas e nomeadas as partes, se ajeitam em poses extravagantes.

Perfuma a casa com as bisnagas de creme ou potes de hidratante que, depois de devidamente abertos com a ajuda dos poucos dentes, são esvaziados num êxtase nunca visto...às vezes degustados com frenesi.

Na sala, dispõe a banqueta do piano na horizontal ou, às vezes, de pernas para cima.

O vaso ao lado, deve ficar tombado, displicentemente, com algumas manchas de terra pelo chão.

A cortina, depois de servir de esconderijo, ganha desenhos de mãos e dedos que interrompem sua monotonia beje.

As almofadas das poltronas são arremessadas ao solo em poses diversas, às vezes empoleiradas umas nas outras, servindo de escada para alcançar algum objeto fora de lugar.

Na ponta dos pés, braços esticados, limpa a mesa pondo tudo abaixo.

Depois de arrumada a casa, procura, no meio de toda essa organização, a avó, o bu e a naninha – está na hora do soninho porque ninguém é de ferro. Ufa!!

 

Márcia Sartorelo

 

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

 

Alumbramento

Eram doze. Deitados na caminha improvisada, sob a luz da lâmpada que os aquecia e, sob os olhares curiosos e vigilantes para que o termômetro se mantivesse nos 37,5°c, esperavam protegidos e ignoravam seu destino.

Vestidos com belas armaduras arredondadas, de puro cálcio, se escondiam indefesos.

Eram vigiados, festejados e cobiçados por todos que passavam pelo berçário onde aguardavam.

No dia previsto, seis olhinhos iluminavam a caminha; já nem precisavam da lâmpada, o brilho dos olhares era suficiente. E um barulhinho se ouviu. Logo outro e mais outro.... armaduras se rompiam, seres de penas molhadas e bico afiados surgiam fazendo algazarra...piu, piu, piu.

Olhos iluminados e sorridentes, as crianças viram, pela primeira vez, nascer a vida, em toda sua beleza e força.

Foi puro alumbramento!!

Márcia Sartorelo

14/03/2023

 

terça-feira, 16 de setembro de 2025


Desencanto

 

Procuro um verso de amor

Meço as palavras

Recolho rimas

Busco ternuras

Vou ao passado

Volto de mãos vazias

Voo pro futuro

Volto arrastando as asas

Leio Bandeira

Passárgada inteira

Esqueço minha alma

Procuro outro corpo-

O que vejo é o beco.

Ah, vou fazer um café!

Márcia Sartorelo

12/09/2023

Semente


Na escuridão,

espero o tempo

de romper a terra,

respirar ar puro,

inundar-me de luz.


Receber a chuva,

o olhar,o cuidado

o broto, a flor,

a colheita.


E retornar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

 No infinito do mar, o olhar

Nas mãos, os remos rio adentro

Nas águas mansas do riacho, andanças

O coração, no atropelo do tempo sem volta.

A vida é risco que corre no leito das águas.

Travessias...

sábado, 20 de dezembro de 2014

Tempo d'espera


Há o tempo da espera
Onde o silêncio respira
Lento, profundo.

Há o tempo da espera
Onde o verso adormece
Quieto, inerte.

Há o tempo da espera
Onde a vida se tece
Pequena, íntima.

Ah! O tempo (des) espera
E a vida rompe,
Se assanha, desassossega.